SENADO AMERICANO CONSUMA APROVAÇÃO DA TORTURA

terça-feira, 3 de outubro de 2006 2 comentários

jornal mexicano La Jornada, 29.09.2006.

O Senado dos EUA aprovou na última quinta-feira (28) a tortura e o fim do direito fundamental de um acusado a ter acesso às provas contra si, no caso de todo estrangeiro (incluindo imigrantes) que sejam definidos como “inimigos” pelo presidente dos Estados Unidos.O presidente George D. Bush promulgará logo esta lei, que ele e seus aliados consideram uma “ferramenta vital” na luta contra “o terror”, cujas medidas, dizem, já evitaram atentados “terroristas” nos últimos anos. A votação na noite de 28 foi de 65 a favor e 34 contra esta Lei de Comissões Militares, como é chamada.Com a prévia aprovação do projeto na Câmara de Deputados e sua aprovação no Senado, o presidente Bush e seu governo conseguiram uma vitória legalizando uma série de medidas autorizadas pelo Executivo ao longo dos últimos quatro anos. Essas medidas recentemente foram consideradas ilegais pela Suprema Corte e violadoras das Convenções de Genebra.Bush realizou uma inesperada visita ao Senado pela manhã para defender a aprovação do projeto, que foi denunciado por observadores da ONU, ex-advogados militares, muitos legisladores, organizações nacionais e internacionais de direitos humanos, editorialistas e especialistas em direito constitucional e internacional.A iniciativa da lei outorga um tipo de anistia para possíveis crimes de guerra cometidos por agentes norte-americanos nos últimos anos (por tortura, prisão clandestina, desaparecimentos, e outros), redefine pela primeira vez em mais de 50 anos as Convenções de Genebra, autoriza a tortura (o nome oficial é “técnicas de interrogatório”) e anula para sempre o direito dos detidos de contestarem as razões de sua prisão e o tratamento recebido. Baseado no projeto aprovado, o presidente ou seus representantes têm o poder de designar qualquer cidadão do mundo, inclusive os imigrantes legais nos Estados Unidos, como um “combatente inimigo ilegal”, o que poderia possibilitar sua prisão por tempo indeterminado sem acesso a um tribunal. A lei também permitirá “os métodos de interrogatório” que se considerem “admissíveis”, ou seja, quem define o que é e o que não é tortura é o presidente, e a decisão permanece secreta.Os tribunais norte-americanos não têm poder de interceder no novo sistema judiciário e militar que processará os “combatentes inimigos” até que se promulgue um veredito. Ninguém poderá processar o governo norte-americano por tais casos com base nas Convenções de Genebra. Provas obtidas por tortura poderão valer nestes processos se o juiz determinar que são “confiáveis”.Mas a anulação do direito de habeas corpus, um princípio legal que antecede a Carta Magna do século XIII, que forma a base legal dos sistemas legais do Ocidente e que está consagrado na Constituição dos Estados Unidos, não tem precedente. Este conceito estabelece o direito de um prisioneiro conhecer as razões pelas quais está detido.John. D. Hutson, ex-almirante e advogado militar de primeiro escalão na Marinha, argumentou perante os legisladores que o direito ao habeas corpus era fundamental para a identidade norte-americana. “Sem esse tipo de proteção, não passamos de mais uma república de banana”, declarou numa audiência da Comissão de Justiça do Senado. Já o Diretor do Centro de Direitos Constitucionais, Vincent Warren, disse que essa lei “outorga ao presidente o privilégio de monarcas, permitindo-lhe encarcerar qualquer crítico como suposto “combatente inimigo”, que jamais verá um tribunal ou terá oportunidade de contestar sua prisão ou o tratamento a que foi submetido. Que diríamos se um outro país aprovasse uma lei tornando legal o seqüestro de um cidadão norte-americano e sua detenção por tempo indeterminado?Outros advogados assinalaram que o habeas corpus foi submetido apenas quatro vezes na história do país, mas apenas por breves períodos de tempo e em territórios que eram zona de combate.Na noite do dia 28 a Anistia Internacional expressou seu desapontamento e declarou que a aprovação “coloca em dúvida o compromisso dos Estados Unidos com os princípios fundamentais da justiça e de julgamentos imparciais”.“Nossa democracia é a grande perdedora”, opinou o editorial do New York Times, sublinhando que os republicanos, seu presidente e os democratas iam aprovar a lei por motivos eleitorais na presente conjuntura política. Concluiu que no futuro os norte-americanos recordarão que “em 2006 o Congresso aprovou uma lei tirânica que será comparada com os momentos mais baixos de nossa democracia”.

HOMEM MATA MENINAS EM COMUNIDADE RELIGIOSA

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BBC Brasil, 02.10.2006

Um homem armado invadiu uma escola no Estado americano da Pensilvânia e matou quatro alunas nesta segunda-feira, antes de se suicidar. O chefe da polícia do Estado, Jeffrey Miller, disse que um homem identificado como o caminhoneiro Charles Carl Roberts, de 32 anos, entrou na escola de uma comunidade religiosa Amish com uma espingarda e uma pistola automática, liberou os meninos - além de uma mulher grávida e três mulheres que estavam com crianças pequenas - e ficou apenas com meninas na sala. Roberts teria então mandado as alunas se alinharem ao longo do lousa e amarrado os seus pés. Avisada por telefone por uma professora que conseguiu fugir para uma fazenda vizinha, a polícia cercou o prédio.
O atirador chegou a dizer que começaria a matar as reféns se os policiais não deixassem o local em dez segundos. Em seguida, tiros foram ouvidos de dentro do colégio e os policiais entraram na escola, que tinha apenas uma sala. Dentro da sala foram encontradas três meninas mortas e sete feridas, que foram levadas a hospitais da região. Uma das meninas feridas morreu no hospital, de acordo com informações obtidas pela agência de notícias France Presse.
Segundo Miller, duas das vítimas fatais eram alunas da escola, voltada para estudantes entre seis e 13 anos. Outra vítima era aparentemente ajudante da professora, já que era um pouco mais velha que as demais.
Os policiais dizem que Roberts matou as meninas com tiros na cabeça a pequena distância, como se as tivesse executado. Escola ficava em área rural habitada por membros da comunidade amish. Miller disse que o motivo ainda estava sendo investigado, mas acrescentou que Roberts "aparentemente" disse à sua mulher que estava se vingando de algo ocorrido 20 anos atrás.
A escola fica numa área rural da Pensilvânia habitada predominantemente pelos amish, como são os chamados os membros de uma comunidade cristã que prega a vida simples, sem as comodidades da vida moderna, restringindo, por exemplo, o uso de carros e telefones.
Segundo o chefe da polícia do Estado, Roberts não era amish.
O ataque, que chocou a pacata comunidade Amish, é o terceiro incidente violento em uma escola dos Estados Unidos em uma semana. Na última sexta-feira, um homem armado invadiu uma escola do Colorado, rendeu alunas e feriu fatalmente uma, antes de se matar. Na quarta-feira, um estudante de 15 anos matou o diretor da sua escola, no Estado de Wisconsin. Os Amish são seguidores de um ramo ultraconservador do cristianismo. Eles são reclusos e rejeitam muitos dos confortos da vida moderna, como telefone e carros. Eles também se recusam a prestar serviço militar e rejeitam assistência do governo. Eles se vestem com roupas simples, e em algumas comunidades não é permitido usar roupas com botões. Eles falam inglês e também um dialeto de inglês e alemão chamado de holandês da Pensilvânia.

RELIGIÃO, DINHEIRO E GUERRA MISTURADOS AO DESEJO DE PODER NO ORIENTE MÉDIO

segunda-feira, 2 de outubro de 2006 0 comentários

Segue abaixo primeira parte de entrevista exclusiva com o jornalista Fernando Evangelista, correspondente da revista Caros Amigos e de outras publicações internacionais. Fernando, que estudou jornalismo com o editor do blog REALIDADE EM FOCO, é um jovem simples, obstinado, revolucionário nas idéias e nas letras e que tem escrito histórias, como ele mesmo diz, "que não se contam". Natural de Florianópolis, vive atualmente na Ilha de Malta (Europa), é autor de vídeos e reportagens premiados no Brasil e no mundo. Em 2003, viu e registrou a Guerra do Iraque e, em agosto deste ano, foi ao Líbano e acompanhou o dia-a-dia de uma guerra insana e cruel. Reportagem completa feita por ele está no link da revista Caros Amigos (http://carosamigos.terra.com.br/) . Nesta primeira parte da entrevista, por e-mail, Fernando Evangelista fala sobre a questão religiosa relacionada aos conflitos.

RF - Sua vivência em áreas de conflito do Oriente Médio deixou, para você, a evidência de algum conflito religioso, puramente político-territorial, econômico ou uma mistura dos três aspectos?

Fernando - Quando comecei a pesquisar sobre o conflito entre palestinos e israelenses, por exemplo, tinha a convicção de que a base do problema era exclusivamente política. Com o tempo, através das reportagens que fiz, fui descobrindo o quanto é decisiva a questão religiosa. Uma das minhas maiores dúvidas sempre foi entender as raízes da ocupação ilegal da Cisjordânia por Israel desde 1967. Por que não se troca, como quer a maioria dos palestinos e a comunidade internacional, terra por paz? Por que Israel não se retira da Cisjordânia? Lá, descobri que, para a maioria dos colonos judeus, a Cisjordânia – que eles chamam de Judéia e Samaria – é a “verdadeira” terra de Israel. Tel Aviv, Gaza, Haifa e o resto não têm a mesma relevância. Para eles, o que importa é o que está à margem oeste do Rio Jordão. E por quê? Por causa dos sentimentos religiosos. Hebron, por exemplo, é onde estão enterrados Abraão, Jacó e Isaac e tudo isso tem um tremendo significado. Essa motivação religiosa gera um problema político, com conseqüências econômicas que estouram, como sempre, no lado mais fraco.
RF - A Guerra no Líbano também tem fundo religioso?
Fernando - Se levarmos em conta que uma das partes envolvidas é o Hezbollah, que significa Partido de Deus, a resposta parece ser positiva. Porém, como mostra o especial da revista Caros Amigos sobre o Oriente Médio, está cada vez mais evidente o fato de que o recente ataque ao Líbano foi planejado por Israel, muitos antes da captura dos soldados. A intenção da ofensiva, segundo essa análise, seria causar o maior dano possível ao Líbano, reavivando as rixas entre as várias religiões. Então, com um governo enfraquecido, uma sociedade dividida, Israel colocaria no poder um aliado, um testa-de-ferro. Esse aliado seria o contrapeso ao poder crescente do Irã na região. Isso - de mudar o governo - pode parecer absurdo, mas faz sentido porque a invasão de 1982, como agora já se sabe, não tinha como objetivo principal defender Israel da OLP (Organização para Libertação da Palestina), de Yasser Arafat. O principal motivo da invasão israelense era colocar no poder Bashir Gemayel, líder da milícia falangista maronita, considerado pelo então primeiro-ministro Menachem Begin e por Ariel Sharon, na época ministro da defesa, um aliado.
RF - Mas qual seria, naquela época, a utilidade de um governo fantoche em Beirute?
Fernando - Pela lógica israelense, com um governo amigo, seria mais fácil a destruição da OLP – que estava montada no Líbano - e de todos os árabes que lutassem por um Estado palestino. Mas o principal seria desmobilizar a resistência palestina contra a ocupação israelense na Cisjordânia. E aqui, na Cisjordânia, fechamos o ciclo da importância da religião nesse jogo político e militar.
RF - E o Iraque?
Fernando - O Iraque é uma outra história. Essa guerra entre xiitas e sunitas, a resistência contra a ocupação, a seqüência de atentados terroristas indiscriminados que está acontecendo hoje e mata cerca de cem pessoas todos os dias começa com a invasão criminosa dos Estados Unidos, planejada também há bastante tempo.

RF - Como você tem visto a intolerância religiosa tanto da parte muçulmana como da parte judaica no Oriente Médio?
Fernando - É curioso como a grande mídia focaliza a intolerância de um lado só, o lado mulçumano. De certo ponto, é compreensível pelos atos e declarações da organização terrorista Al-Qaeda e suas redes similares. A mídia adora a Al-Qaeda porque não existe nada mais “espetacular” do que as ações do grupo e, no final das contas, o que conta é o espetáculo. A intolerância é um dado concreto, mas pouco compreendido. Quando estive no Iraque em 2003, só vi homens com armas nas mãos, espumando de ódio contra o Ocidente, quando as câmeras das televisões estrangeiras eram ligadas. ões estrangeiras eram ligadas. Tudo se transformava num piscar de olhos, como um grande teatro. Depois, com os microfones e câmeras desligadas, as pessoas voltavam a sua rotina. O vendedor de verduras que, segundos antes, aparecia com o rosto desfigurado pelo ódio, segurando uma kalishnikov (fuzil), conversava tranqüilamente com o repórter norte-americano, o barbeiro voltava a cortar barbas e o porteiro do hotel voltava a ler a revista Vanity Fair. É claro que hoje a situação está muito diferente, está tudo muito mais grave, agora é caos generalizado, mas naquela época, com o país já ocupado, quase todos os iraquianos com quem conversei queriam saber do Brasil, do futebol, do carnaval. Poucos queriam falar de guerra e nenhum deles me hostilizou por eu ser ocidental. Um árabe, em meio aos carros militares, quis saber de onde eu era. Ao descobrir que eu era brasileiro, me pegou pelos braços e, com ar muito sério e grave, perguntou: “escuta, você não tem medo de morar no Brasil, lá não é muito violento?”.

RF - Você diz que a intolerância não é apenas mulçumana, poderia dar um exemplo?
Fernando - Todas as guerras são – de algum modo - fruto da intolerância e, em muitos casos, fruto do fundamentalismo. A Guerra ao Terror, levada a cabo pela administração Bush, é uma guerra baseada – além dos motivos econômicos já citados - na intolerância e no fundamentalismo. A intolerância gera a desumanização, que é o pressuposto da guerra e ela vem de cima para baixo, se espalhando. No conflito árabe-israelense, onde todo mundo focaliza a intolerância mulçumana, é fácil perceber, mesmo nos discursos oficiais israelenses, a presença da intolerância. Alguns exemplos: Itzhak Shamir dizia que os palestinos eram “gafanhotos”. O general Raphael Eitn os chamou de “baratas”. O Ministro da Defesa, Ben-Eliezer, os definiu como “piolhos”. Para o ex-primeiro-ministro Menahem Begin, os palestinos eram “bestas caminhando sobre dois pés”. A primeira-ministra Golda Meir preferia chamá-los de “animais de duas patas”. Isso não demonstra intolerância? Em 1969, Meir, em entrevista concedida ao jornal londrino The Sunday Times, questionada sobre os palestinos, respondeu: “eles não existem”. E nessa frase, que tem sua raiz no slogan do sionismo, ela resumiu todo o cancelamento da humanidade do outro, justificando, assim, a barbárie cometida e consentida. Sem remorsos.

GROENLÂNDIA ESTÁ ENCOLHENDO

quarta-feira, 27 de setembro de 2006 0 comentários

Agência Fapesp, 27.09.2006

A maior ilha do mundo está encolhendo. Dados obtidos a partir de dois satélites da Nasa, a agência espacial norte-americana, mostram que a Groenlândia continua perdendo gelo para o mar em volume elevado e que a situação piorou nos últimos anos. De acordo com um estudo feito na Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, de abril de 2004 a abril de 2006 a Groenlândia perdeu massa de suas placas em uma taxa duas vezes e meia maior do que no biênio anterior. Os resultados foram publicados na edição atual da revista Nature.
Os autores da pesquisa, Isabella Velicogna e John Wahr, calcularam que a ilha, que pertence à Dinamarca, perdeu 68,3 trilhões de metros cúbicos de gelo no período analisado. Ou seja, em dois anos foi perdido um volume maior do que o do Lago Erie, um dos Grandes Lagos da América do Norte e 11º maior lago do mundo.
Um estudo anterior, feito na Universidade do Texas e publicado em agosto na revista Science, concluiu que a Groenlândia perdeu 23,7 trilhões de metros cúbicos anualmente entre 2002 e 2005. A nova pesquisa indica a aceleração da perda de massa. Segundo os autores, as perdas aumentaram especialmente a partir de 2004. “As mudanças que estamos verificando são provavelmente um ótimo indicador das mudanças das condições climáticas na Groenlândia, especialmente na região sul”, disse Isabella em comunicado da Universidade do Colorado.
Análises feitas por diversos grupos de pesquisa indicam que as temperaturas no sul da ilha aumentaram em cerca de 2,4º C nas últimas duas décadas. Um estudo feito este ano por cientistas da Universidade do País de Gales indicou que os glaciares de Kangerdlugssaq e Helheim, no sudeste da Groenlândia, estão perdendo duas vezes mais gelo para o mar hoje do que há cinco anos.
A Groenlândia detém, na forma de gelo, 10% da água doce da Terra. Segundo Isabella e Wahr, se a ilha derretesse completamente o nível dos oceanos no planeta se elevaria em 6 metros.
A pesquisa publicada agora na Nature utilizou dados obtidos pelos satélites Grace (de Gravity Recovery and Climate Experiment), lançados em 2002 pela Nasa em parceria com a Agência Espacial Alemã. Cada satélite orbita a Terra 16 vezes ao dia, a 500 quilômetros de altitude. O objetivo da missão é medir alterações no campo gravitacional terrestre causados por mudanças na massa do planeta, em formações como geleiras, oceanos, lagos ou aqüíferos.
O artigo Acceleration of Greenland ice mass loss in spring 2004 pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.

JORNALISMO DE QUINTA CATEGORIA

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Alberto Dines
Observatório da Imprensa, 26.09.2006

O semanário esteve nas primeiras páginas dos jornais, foi citado nos telejornais – a imprensa, enfim, virou notícia. E caso de polícia. Agora, a direção do semanário tenta defender o indefensável. Em duas páginas da última edição (nº 1927, págs. 26-27), o diretor editorial Carlos José Marques sai em defesa do repórter/redator-chefe Mário Simas Filho e, principalmente, do capo da empresa, Domingo Alzugaray. Missão impossível.
O noticiário político-policial de cada dia torna mais esfarrapadas aquelas esfarrapadas desculpas. O que dizem os Vedoin, o Ministério Público, a Polícia Federal e até o presidente Lula nos palanques desmente cabalmente aquela coleção de palavras e frases totalmente desligadas da realidade.
O diretor do semanário conseguiu até desmentir o que escreveu o seu colega Mário Simas Filho na edição anterior (nº 1926, pág. 32). Disse que a entrevista com os Vedoin foi realizada na quarta-feira (13/9). Mas na primeira linha da matéria em questão está dito o seguinte: "Na tarde de quinta-feira 14, quando receberam a reportagem de IstoÉ, os empresários Darci e seu filho Luiz Antônio estavam tensos...".
Não se trata de irrelevância: o diretor tentava desfazer um grave deslize cometido pelo seu repórter/redator-chefe ao admitir que escrevera a matéria em cima da perna, uma ou duas horas antes de a revista ser impressa. Como se sabe, a revista rodou na quinta à noite, mas o teor da matéria já fora distribuído por e-mail às redações.
Se a matéria foi escrita 24 horas antes, por que não se procurou ouvir o outro lado? Porque mesmo escrita na semana anterior jamais seria concedido aos acusados o direito de resposta. Os patrocinadores da "denúncia" não queriam esclarecer, queriam pichar.
Histórias da cessão
A estratégia de defesa da IstoÉ pretende mostrar que o dossiê produzido pelos aloprados do PT (assim como o dinheiro para pagar aos sanguessugas) nada tem a ver com as informações fornecidas pela família Vedoin contra o candidato José Serra. O dossiê podre seria uma coisa e as informações investigadas pelos diligentes repórteres do semanário, outra. Mentira: são uma coisa só.
Também chama a atenção o fato de que na defesa da IstoÉ está praticamente ignorada a transação entre o redator-chefe Simas Filho e Hamilton Lacerda, assessor muito próximo do candidato Aloízio Mercadante. Os aloprados só aparecem em outra matéria , "Os homens de Lula" (págs. 60-63) como se o "maior escândalo eleitoral dos últimos tempos" [sic] não tivesse começado nas páginas da revista da Editora Três.
Convém lembrar que na terça-feira (19/9), o redator-chefe de IstoÉ havia declarado à Folha de S.Paulo que a ele só interessava aquilo que fora publicado a partir da sua assinatura na matéria. Com isso, desligava-se completamente das negociações que antecederam a cessão do dossiê. Dois dias depois, o mesmo redator-chefe contou à mesma Folha a história do seu contato com o assessor de Mercadante.
Exemplo de coerência
Outro dado de suma importância omitido na defesa de IstoÉ é a revelação da revista Época de que fora procurada pela mesma gangue de aloprados e recusara qualquer entendimento sem antes investigar o teor das denúncias. Isso significa que os aloprados tinham uma idéia fixa: usar a imprensa para desmoralizá-la posteriormente. Época deixou IstoÉ de saia justa (como foi exposto na emissão televisiva do Observatório da Imprensa, na terça, 19/9): ficou evidente que existem revistas que publicam qualquer acusação e outras que antes procuram investigar. Não é difícil adivinhar o grupo ao qual agora filia-se a revista da Editora Três. É bom lembrar, porém, que a Época foi o veículo usado pelo grupo do ex-ministro Antonio Palocci para quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa.
IstoÉ está sendo exemplar em matéria de coerência: manipulou a denúncia, manipulou as investigações sobre a denúncia e agora, num acesso de expiação, manipula a própria defesa.

Esse artigo do jornalista Alberto Dines é interessante na medida em que nos mostra a importância de percebermos os interesses que estão por trás dos meios de comunicação e que isso permeia a atuação de qualquer veículo.

A BOA POLÍTICA DE DANIEL

terça-feira, 26 de setembro de 2006 1 comentários

Felipe Lemos

Às vésperas de mais uma eleição presidencial, fala-se muito em conscientização, cidadania e a diferença que cada um pode fazer votando. Verdade. O voto tem seu valor porque é a oportunidade que os cidadãos possuem para escolher quem serão seus representantes na gestão pública, mas é preciso ir além disso hoje em dia. Não basta se posicionar nesta chamada democracia representativa como mais um eleitor. E sim como uma pessoa ativa capaz de ajudar a mudar seu ambiente e a sociedade ao redor.
Critica-se de maneira contundente a corrupção enraizada na política partidária brasileira, mas muitos cidadãos, quando possível, aderem à desonestidade em suas práticas corriqueiras. São tão corruptos quanto os mensaleiros, as sanguessugas, os vampiros e todos os que agem de forma ilícita na administração do que é de todos. Isso mesmo! Muitos dos que se dizem indignados com o banditismo de terno e gravata no Congresso, no Senado, no Judiciário ou no serviço público em geral são, em grande medida, corruptos em suas pequenas ações ou corruptores, ou seja, estimulam a corrupção propondo suborno e facilitãções.
Boa parte dos que se insurgem para criticar a ineficácia de seus representantes na administração pública também nada fazem para mudar a comunidade na qual estão inseridos. Nem se preocupam com a melhoria da vida do seu bairro, da sua cidade, do seu ambiente. Mas são audaciosos em apontar o que precisa ser feito e se eximir de quaisquer responsabilidades. Como se a sociedade fosse feita sem eles...
Fico pensando se um grande servidor público, como o hebreu Daniel, ficava de braços cruzados vendo o Império Babilônico massacrar seus conterrâneos ou ruir por falta de eficiência administrativa. Nada disso. Apesar de estar em posição de exilado, Daniel, a exemplo de outros hebreus, colocou-se, pelo poder divino, à disposição do tirano Nabucodonosor. Não porque aprovasse os atos errados do governante, mas porque sabia que tinham um papel a desempenhar naquela corte. Com apoio divino, elucidou o estranho do sonho do rei e deu sobrevida a magos, encantadores e adivinhadores de araque que não souberam atender o pedido real. Com seu ato social e religioso, evitou a matança de vários "sábios" babilônicos.
E o mais interessante. Daniel não teve medo de reafirmar seus princípios ainda que guindado a posições elevadas, não se curvou diante de imagens criadas por homens, não deixou de orar em sua casa e nem se intimidou frente a uma cova de leões. Pela firmeza de caráter continuou em cargos de grande importância na Babilônia antiga que, por desprezo dos sucessores de Nabucodonosor, sucumbiu aos inimigos e passou de fortaleza intransponível a pó e cinzas.
Também não disputou funções eletivas, mas foi o eleito de Deus para missões de relevância eterna. Se há uma boa política, essa é a de Daniel. A grande lição dele não está nos benefícios de se gozar de status privilegiado em um governo, mas na forma de se lidar com o poder de maneira honesta e se prontificar a fazer o seu melhor. No caso de Daniel, o melhor para Deus e para os homens.

DIÁLOGO COM ISLÃ É VITAL PARA O FUTURO, ASSEGURA PAPA

segunda-feira, 25 de setembro de 2006 0 comentários

Agência Zenit, 25.09.2006

Ao encontrar-se nesta segunda-feira com diplomatas de vinte e um países de maioria islâmica e com representantes muçulmanos da Itália, Bento XVI assegurou que o diálogo entre cristãos e muçulmanos é decisivo para o futuro da humanidade. O Papa convocou o encontro, seguido ao vivo pelo canal de televisão árabe «Al Jazeera», para «consolidar os laços de amizade e de solidariedade entre a Santa Sé e as comunidades muçulmanas do mundo», após as interpretações de alguns grupos islâmicos de seu discurso pronunciado na Universidade de Ratisbona em 12 de setembro passado. «Neste contexto particular, quero hoje expressar toda a estima e o profundo respeito que sinto pelos crentes muçulmanos», disse o Papa, recordando a declaração do Concílio Vaticano II, «Nostra Aetate», na qual se manifesta de maneira oficial o «apreço» da Igreja pelos «muçulmanos que adoram o único Deus». O discurso do bispo de Roma, pronunciado em francês, foi também distribuído entre os diplomatas em uma tradução ao árabe, além das versões inglesa e italiana. Participou também o representante da Liga dos Estados Árabes, Salid Khalid.
O Papa não discutiu a questão das interpretações da conferência de Ratisbona, pois na semana passada já havia esclarecido em duas ocasiões que sua citação do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, que havia provocado as reações islâmicas, não era mais que um recurso para apresentar o problema da relação entre religião e violência. Para eliminar toda dúvida, disse que «desde o início de meu pontificado tive a ocasião de manifestar meu desejo de seguir estabelecendo pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões, manifestando particularmente meu apreço pelo crescimento do diálogo entre muçulmanos e cristãos».
Segundo reconheceu, «o diálogo inter-religioso e intercultural entre cristãos e muçulmanos não pode reduzir-se a uma opção temporária. Com efeito, é uma necessidade vital, da qual depende em grande parte nosso futuro», disse, confirmando o que já havia explicado em 20 de agosto de 2005 em Colônia (Alemanha), ao encontrar-se com representantes de algumas comunidades muçulmanas.

Depois de intencionalmente criticar o Islã, o papa Bento XVI recoloca-se em seu lugar como o grande ícone do diálogo entre as religiões e profeticamente afirma que essa aliança entre católicos e islâmicos é importante para o futuro.

 
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