Simples Olhar

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011 0 comentários

Por Felipe Lemos.


                Talvez um dia eu consiga assimilar algumas das características de Amair de Jesus. Uma delas é a capacidade de viver uma vida longe dos dilemas e dramas urbanos de maneira simples. Indiferente aos conflitos na Líbia, aos ronaldinhos, aos terremotos, às discussões financeiras, às ameaças de guerra no planeta, Amair só nutre uma sincera preocupação: avisar a população de que a lancha de auxílio médico adventista está para chegar à comunidade. Pudera, diria o espertalhão de plantão, já que Amair vive em uma localidade ribeirinha às margens do rio Manacapuru, na Amazônia. Mas não é apenas isso. O sorriso franco de quem não se importa em vestir calção e calçar surrados chinelos todos os dias mostra que a vida pode ser dura em muitos sentidos, mas vai além do que eu compreendo a capacidade de digerir os ditames do cotidiano. É um exercício diário.
                Como observador fora da comunidade, ainda me coloco alheio à realidade. Tenho dificuldade de entender vida como uma rotina de passar o dia inteiro em atividades agrícolas sem energia elétrica em casa, olhando a natureza e convivendo no sentido pleno de comunidade. Claro que lá há dilemas, dramas, vicissitudes, erros, pecados. Mas eles parecem mais poéticos, menos estressantes, menos traumáticos, mais possíveis de serem enfrentados com esperança. O calor extenuante durante o dia não desanima o solícito Amair. É interessante vê-lo conduzindo a voadeira pelo riozão, quase mar, encontrando caminhos onde a mente urbanóide e bitolada não consegue sequer enxergar um palmo diante do nariz. Desce rápido quando atraca às margens de uma comunidade, sai correndo em busca de algum mantimento e avisa os vizinhos de que logo a lancha estará por ali, dentro de alguns dias, algumas horas, não importa.
                Gratificante é constatar que o simples homem do rio não chegou a estudar as ciências dos doutos. Mas tem capacidade de liderar seu grupo, criar meios de tornar boa a convivência na “ilha” afastada centenas de quilômetros da dita civilização de cimento e pedra. Confia na solidariedade dos lancheiros, que levam saúde e prevenção ao povo que nem sabe muito bem se está doente ou se doença tem cura, tem tratamento. Acredita nas pessoas ainda. Sorri quando olha para alguém que se amedronta com o banzeiro no rio.
                Eu ainda quero pensar um pouco mais como o Amair; que a perspectiva da vida não está no solo duro do asfalto e nem na tecnologia que me faz escravo diário. Que os hábitos simples na terra da noite silenciosa podem me ensinar muita coisa que não aprendi ainda. Que as amizades desenvolvidas em torno da cooperação mútua ainda existem. E que consolidam uma saudável comunidade. Como eu disse: não me iludo, há problemas no simples e no complexo, mas a singeleza do assovio para chamar o companheiro e alertá-lo em alto rio é um aprendizado marcante.

Populações da Amazônia têm esperança com Luzeiro

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 0 comentários

Na região do rio Manacapuru, no estado do Amazonas, a ADRA - Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais tem feito a diferença onde nem o poder público consegue chegar com regularidade. Pelo menos 32 comunidades são atendidas atualmente, no ano em que a lancha solidária Luzeiro completa 80 anos de atuação. Há várias famílias que estavam há mais de dois anos sem atendimento médico por conta das distâncias até o hospital mais próximo e que agora são visitadas periodicamente pela lancha que oferece clínica geral, dentista e muita orientação preventiva. O objetivo não é o de apenas resolver imediatamente os problemas, mas evitá-los com um trabalho de conscientização para mais de 2.100 pessoas ao longo deste rio, no coração da Amazônia.








Veja vídeo feito pelo jornalista Heron Santana e algumas fotos que fiz nesta semana na região.

Jovem mata a mãe por causa de videogame

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011 0 comentários

Portal Olhar Digital, 16.02.2011, às 11h40min.

Um jovem de 16 anos, morador da Filadélfia (Estados Unidos), confessou ter matado sua própria mãe nesta semana. O que mais chocou a opinião pública, no entanto, foi o motivo: a proibição de jogar PlayStation.

O menino Kendall Anderson disse que assassinou sua mãe, Rashida Anderson, enquanto ela dormia, ao acertar um martelo na cabeça da vítima. Logo após o crime, o jovem tentou esconder as evidências, cremando a arma do crime no forno da cozinha e escondendo o corpo da mãe atrás da casa para, só então, telefonar para a polícia, informando sobre o desaparecimento de Rashida.

Essa não foi a primeira vez em que um jogo motivou uma ocorrência policial. Em outubro de 2010, uma mãe matou o filho de três meses por conta do Farmville.

Nota: Infelizmente este é o reflexo da sociedade consumista na qual todos estão inseridos. Embora nem todos tenham a mesma reação desmedida e insana deste rapaz, a falta de valores sólidos nas famílias revela crimes como este. Muitos, ao lerem este tipo de notícia, podem ser levados a pensar que em sua casa isso não acontece. Pode ser que não ocorra e que bom que a situação não está neste nível. O problema é que se o consumismo e o desejo de apenas possuir coisas e obter estas coisas a qualquer preço (problema de crianças, adolescentes, jovens e adultos) inevitavelmente pode levar a uma situação trágica como a descrita na nota do portal. Os valores espirituais (bíblicos) deveriam ser elevados nas casas desde cedo e a figura dos pais não deveria estar associada ao conceito do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço". O respeito e o apego a coisas boas deriva de referências dentro do lar. Se os próprios pais não valorizarem aspectos espirituais, dificilmente os filhos terão este interesse. Claro que religião em casa não significa antídoto eficaz contra criminalidade. Mas é uma contribuição importante que pode fazer a diferença.

Realidade em Foco agora em vídeo

sábado, 12 de fevereiro de 2011 1 comentários

Começamos hoje uma experiência que deverá se repetir por várias vezes. Comentários em vídeo. Comente, sugira e divulgue.

O Egito e os precedentes das crises

domingo, 6 de fevereiro de 2011 1 comentários

Por Felipe Lemos, mantenedor deste blog.


                Mesmo sem uma ampla pesquisa documental histórica, é possível intuir que períodos de crise econômica geralmente precedem grandes revoluções ou insurreições populares. O historiador Eric Hobsbawn, em A Era das Revoluções, à página 162, por exemplo, diz no capítulo introdutório das revoluções que “por trás destas grandes mudanças políticas estavam grandes mudanças no desenvolvimento social e econômico”. A história escrita diariamente na mídia confirma isso. Recentemente a Grécia apresentou conflitos na sua capital por causa da crise econômica pela qual o país passou. Na França, alterações nas regras previdenciárias motivaram confusões em Paris. Na Tunísia, a insustentável fragilidade das políticas sociais e econômicas, levadas a um ponto máximo, originaram insurreições e a fuga dos dirigentes da nação. E agora o Egito também esboça a reação motivada, sobretudo, por questões econômicas. A clã Mubarak está ameaçada, principalmente, porque grande parte da população padece com baixos ganhos regulares e não vê perspectiva de significativa e rápida melhora. Ouvi que alguns ganham menos de 2 dólares por dia. Parece ser um motivo mais do que justificável para protestar. Isso sem falar na decadência agora visível e patente ao mundo inteiro de Cuba, onde recentemente grande parte dos servidores públicos foram demitidos para desonerar a folha de pagamento governamental. Há uma gama de razões para as insurreições populares e assim sempre foi, mas o fundo econômico, que sempre foi uma das razões, adquiriu maior força ultimamente.
                O que me interessa analisar é o que está por trás deste enfraquecimento da estabilidade financeira de um país. É fato que ainda perduram regimes ditatoriais no planeta e que se perpetuam, claro que por força militar, mas amparados e alicerçados, também, por  uma certa estabilidade econômica. É um fato destacado que, diante de inflação controlada, poder de compra razoavelmente garantido e índices de desemprego sob controle, a população tende a se manter pacata, mesmo diante de regimes políticos caracterizadas por corrupção e mesmo cerceamento de determinadas liberdades individuais. A revolução surge quando se mexe literalmente no bolso.
                E quando os parâmetros de solidez financeira de uma nação deixam de existir e isso redunda em perdas para os cidadãos comuns, surge um precedente enorme. Abrem-se as possibilidades de se impor formas de governar ainda mais coercitivas em nome de uma ordem pública. Mudanças, neste caso, podem ser boas ou ruins, pois depende da situação. Parece que governos e população, quando ameaçados pela queda de classe social e status quo, recorrem à violência e à guerra urbana. Falo dos dois lados.
                Algo que ocorre diante das insurreições, sob uma análise espiritual e bíblica. É a de que fica provado que o que mantém, muitas vezes, a estabilidade social a salvo de convulsões constantes é o fato de as finanças andarem equilibradas. Com dinheiro no bolso e crescimento econômico sustentável, os ânimos são mantidos calmos. Só que quando isso acaba, nada mais parece manter a “casa em ordem”. Fica evidente a falta de algo adicional, algo que chamo de estabilidade espiritual. As relações humanas, predominantemente pautadas pelo ganhar em termos materiais, desfragmentam-se diante dos recursos escassos que movem a roda comercial e industrial. Se não existir um pensamento “do alto”, como comenta o apóstolo Paulo em uma de suas cartas aos cristãos colossenses, o vil metal vira moeda de briga. A busca pessoal de Deus e um comprometimento com princípios, e não com apenas com metas financeiras, mudam efetivamente o estado das coisas.
                O abalo das nações, por conta das dificuldades financeiras a curto, médio e longo prazo, não tem solução. Cedo ou tarde, as crises vão bater à porta dos países ricos ou dos que se consideram em desenvolvimento. E o que vai permanecer é a capacidade de reação não por violência ou um desespero diante da possível perda dos benefícios advindos de uma estabilidade de moeda e de uma macroeconomia ajustada. A melhor reação é a fundamentada em uma esperança espiritual e eterna. Vai além do perecível e das lutas humanas.

Exercícios melhoram a memória

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011 0 comentários

Agência Fapesp, 1º.02.2011.

Exercícios físicos aeróbicos podem diminuir a perda de memória em idosos e prevenir o declínio cognitivo associado com o envelhecimento, indica estudo que será publicado esta semana no site e em breve na edição impressa da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
A pesquisa, feita nos Estados Unidos, verificou que um ano de exercícios físicos moderados foi capaz de aumentar o tamanho do hipocampo em adultos mais velhos, levando a uma melhoria na memória espacial. De acordo com estudos anteriores, o hipocampo diminui com a idade, o que afeta a memória e aumenta o risco de demência.
Arthur Kramer, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, e colegas examinaram os cérebros de 60 adultos saudáveis com idades entre 55 e 80 antes, durante e após o período de um ano de exercícios.
Os pesquisadores observaram que os participantes que caminharam por 40 minutos, três vezes por semana, tiveram um aumento de em média 2,12% no volume do hipocampo esquerdo e de 1,97% no direito. O grupo que praticou apenas exercícios de alongamento teve diminuição média de 1,40% no hipocampo esquerdo e de 1,43% no direito no período.
Testes de memória espacial foram conduzidos antes, com seis meses e após um ano. Aqueles que integraram o grupo de exercício aeróbico apresentaram melhoria nas funções de memória, que os cientistas apontam estar associado com o aumento no hipocampo.
O grupo que praticou atividade física aeróbica também teve aumento em diversos biomarcadores associados com a saúde cerebral, como no fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF, na sigla em inglês), uma pequena molécula envolvida na memória e na aprendizagem.
“Os resultados do estudo são particularmente interessantes por indicarem que mesmo pequenas quantidades de exercícios em adultos mais velhos e sedentários podem levar a melhorias substanciais na memória e na saúde cerebral”, disse Kramer, que dirige o Instituto Beckman na Universidade de Illinois.

Nota: A Bíblia declara que o nosso corpo é o templo de habitação do Espírito Santo, por isso precisamos cuidar dele adequadamente. Não cuidar simplesmente para exibição ou por medo de doenças. O objetivo do cuidado do corpo é espiritual, na medida em que as pessoas saudáveis física e  mentalmente se tornam canais mais eficazes para ouvir a voz de Deus e compreendê-la. Este é o conceito bíblico de saúde integral. E a ciência concorda com isso em suas pesquisas, mostrando a íntima relação entre mente e corpo. E, podemos acrescentar, a questão espiritual também como beneficiada com uma prática saudável.  

Revista semanal destaca movimento da Igreja Mundial

domingo, 30 de janeiro de 2011 3 comentários

 Revista IstoÉ, Semana de 30.01.2011.

Com microfone em punho, Valdemiro Santiago de Oliveira, todo-poderoso líder da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), caminha bambeando de um lado para outro do altar fincado bem no centro de um galpão de 18 mil metros quadrados, localizado no Brás, bairro da região central de São Paulo. Dez mil pessoas se aglomeram ao redor do autointitulado apóstolo, em estado de atenção e êxtase, à espera de uma palavra, um toque, um abraço. Com o rebanho em suas mãos, e um timing digno de showman, ele chora, gargalha, transpira. Está entregue à multidão. A voz rouca sai carregada de ironia e ornamentada por um sorriso de canto de boca. “Está um congestionamento aqui fora. Ouvi dizer que acontece uma feira na redondeza!”, diz. Mas não há feira nenhuma. O movimento na região é provocado pelos concorridos cultos desse mineiro de 47 anos, natural de Cisneiros, distrito de Palma, a 400 quilômetros de Belo Horizonte. E Santiago sabe muito bem disso. Há 30 anos no movimento neopentecostal brasileiro, segmento que mais cresce no Brasil (deve chegar a 40 milhões de adeptos no novo Censo), o homem forte da Mundial é o mais fulgurante fenômeno religioso do Brasil atualmente. Sua identificação direta com a massa – é negro, tem sotaque caipira e português falho, trabalhou na roça e passou fome – o coloca nos braços humildes e carentes daqueles que procuram uma solução espiritual para as mazelas da vida.

“Quem me viu na tevê? Quem foi a Interlagos?”, questiona Santiago, enquanto os fiéis, contidos por obreiros, se debatem e gritam em sua direção. No primeiro dia de 2011, o religioso ganhou minutos preciosos em rede nacional por causa da massa impressionante de discípulos que conseguiu arregimentar em pleno 1º de janeiro, vinda de todos os cantos do Brasil para celebrar com ele no autódromo de Interlagos. Segundo os organizadores do evento, havia lá 2,3 milhões de pessoas. Nos dias 9 e 11 de janeiro, quando a reportagem de ISTOÉ acompanhou os cultos na sede mundial da IMPD, no Brás, uma antiga fábrica comprada por R$ 60 milhões em 60 parcelas de R$ 1 milhão, o apóstolo faturou sobre essa exposição em horário nobre. “Ninguém pode dizer que sou um sujeito dotado de uma inteligência, uma sabedoria”, disse Santiago à ISTOÉ, currículo escolar findo no quinto ano do ensino fundamental, mas alinhado em um terno bem cortado, gravata, camisa com abotoaduras douradas e sapatos tamanho 44 impecáveis. “Quem olha a minha vida e faz uma análise não tem como não glorificar Deus.”
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GLÓRIA
O ex-roceiro, que cuidava de marrecos e foi viciado em
drogas, é ovacionado por 2,3 milhões de pessoas,
em Interlagos, no primeiro dia de 2011
 
De fato, o garoto que perdeu a mãe aos 12 anos e caminhava oito quilômetros por dia para levar marmita para os familiares na roça lidera, hoje, um império religioso que conta com três mil igrejas espalhadas pela América do Sul e do Norte, Europa, Ásia e África e 4,5 milhões de fiéis, de acordo com dados da própria IMPD (leia ao lado quadro comparativo com outras denominações evangélicas). Treze anos depois de fundar a Mundial, o homem que gosta de cultivar a fama de matuto mora em um condomínio de luxo em Barueri, na Grande São Paulo, e tem na garagem três carros importados blindados – uma Land Rover, um Toyota e um Peugeot. Motoristas e seguranças particulares estão sempre à sua disposição. Helicópteros e um jato particular também. A Igreja Mundial, por sua vez, tem inaugurado um novo templo por semana e honra, mensalmente, uma despesa em torno de R$ 40 milhões. O dinheiro da igreja vem, principalmente, do dízimo arrecadado. Membros da IMPD estimam receber de doação em seus cultos uma média de R$ 10 por fiel. Há, ainda, envelopes nas cores ouro, prata e bronze. Pastores afirmam que a diferenciação não está diretamente ligada ao valor a ser dado à igreja. Segundo eles, cada tipo de envelope contém uma mensagem diferente. Nesse primeiro mês de 2011, o apóstolo reforçou o pedido por doações argumentando despesas com emissoras de tevê e rádio. “Ano novo, contratos novos e reajustados... Essa semana preciso muito de sua ajuda. Quem pode trazer até terça-feira R$ 100?”, perguntou Santiago. A quantia foi diminuindo à medida que o tempo ia passando. “E uma oferta mínima de R$ 30? Quem puder, fique de pé que o obreiro irá dar o envelope.”

É a mística de milagreiro de Santiago a chave de seu sucesso e a responsável pelo fenômeno da multiplicação de fiéis à sua volta. E a televisão amplifica em doses continentais esse poder de comunicação inato do líder evangélico. Atualmente ele ocupa 22 horas diárias na programação da Rede 21, que pertence ao grupo Bandeirantes, ao custo de R$ 6 milhões mensais. Com mais R$ 101 mil por mês, pagos à Multichoice, empresa sul-africana distribuidora de sinal, também está no ar em Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Líbia, Zimbábue e Botswana. Na telinha, o que se vê são os cultos de Santiago em seus templos. Para isso, a performance do pastor é acompanhada, minuto a minuto, por fotógrafo e uma equipe de cinegrafistas, que registram tudo para ser divulgado, além da tevê, no jornal, na revista e na rádio da igreja. Na África do Sul, a Mundial possui uma hora de programação na TV Soweto, ao custo de R$ 59 mil mensais. Em Maputo, a capital de Moçambique, uma tevê e uma rádio já estão sob o domínio da corrente evangélica do ex-roceiro, fissurado, segundo palavras dos próprios membros da igreja, por se comunicar com os súditos via tevê. Afinal, se em um templo como o do Brás o apóstolo consegue falar para 30 mil pessoas, no ar, citando apenas os que possuem antena parabólica no Brasil, ele chega a 25 milhões de lares via Rede 21.
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Não e à toa que, anunciados pela telinha, seus eventos estão sempre lotados. “Aquela máxima da publicidade de que uma imagem vale mais do que mil palavras se aplica muito bem a Valdemiro”, afirma Ronaldo Didini, ex-membro da cúpula da Universal e braço-direito de Santiago, que responde pela estratégia de mídia da igreja. Além dele, são dirigentes da Mundial um consultor financeiro, também ex-Universal, e três deputados eleitos no último pleito – dois federais (José Olímpio, PP/SP e Francisco Floriano, PR/RJ) e um estadual (Rodrigo Moraes, PSC/SP). “As coisas são cada vez mais rápidas e profissionalizadas na Mundial”, diz o pesquisador Ricardo Bitun, autor da tese “Igreja Mundial do Poder de Deus: Rupturas e Continuidades no Campo Religioso Neopentecostal”, defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Isso ocorre, em grande parte, por conta de um fenômeno conhecido como nomadismo religioso. Se durante muito tempo a Igreja Católica era a maior fornecedora de ovelhas ao rebanho pentecostal, agora esses últimos trocam de fiéis entre si. “Meu trabalho é o altar; meu negócio é multiplicar as almas”, diz Santiago, que também fatura com a crise de igrejas como a Renascer em Cristo, por exemplo, que perdeu em 2010 seus discípulos mais ilustres, o jogador de futebol Kaká e sua mulher, Caroline Celico.

A ascensão de Santiago ao olimpo dos líderes religiosos do Brasil começou a ser moldada em 1976, quando, aos 16 anos, ele se converteu ao protestantismo. Naquela época, o garoto revoltado e de difícil trato, que em Cisneiros cuidava de marrecos, arava a terra e colhia ovos de anu para fazer omelete, morava com um dos 12 irmãos na mineira Juiz de Fora. Nessa cidade, trabalhava como pedreiro e levava uma vida desregrada. Dormia muitas noites na calçada e era viciado em drogas – ele se limita a dizer que consumia “álcool e substâncias sintéticas em forma de comprimidos”. Até que um pastor lhe estendeu a mão e Santiago passou a pregar. Foi obreiro, pastor, bispo e membro da cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Nos templos de Edir Macedo, atuou por 18 anos e se desligou em 1997, depois de um suposto desentendimento com o líder evangélico. Já havia, porém, decorado a cartilha de seu mentor. Pesquisador da área da sociologia da religião, Ricardo Mariano afirma que as crenças e práticas mágico-religiosas da Mundial são uma cópia da Universal. Tanto que até o nome da igreja de Santiago, Igreja Mundial do Poder de Deus, é uma evidente inspiração na primeira casa: Igreja Universal de Reino de Deus. Perspicaz, o religioso caipira foi beber da fonte que já havia sido aprovada pelo público. Tanto que, além de convidar parte da cúpula da IURD, atraiu também dezenas de pastores, prática que adotou até um ano atrás, quando membros da Mundial começaram a temer que houvesse “universais” infiltrados em suas fileiras.

No altar da igreja que fundou em 1998 Valdemiro passou a receber portadores do vírus da Aids, doentes de câncer e até cadeirantes desenganados pela medicina. As pessoas em cadeira de roda são, até hoje, um dos campeões de audiência. É comum encontrar no templo fiéis carregando para o alto cadeiras de roda, num gesto explícito de libertação. Em um programa no início de janeiro, o apóstolo protagonizou, via tevê, uma situação do tipo. Ao seu lado, caminhando, um ex-paralítico afirmava ter permanecido imóvel por 15 anos. A reportagem de ISTOÉ tentou contato com esse homem, mas membros da cúpula da Mundial disseram ser impossível localizá-lo, pois as fichas de identificação ainda não estão informatizadas e há muitos casos como o dele.

O pastor mineiro usa como nenhuma outra liderança pentecostal os depoimentos de enfermos e a evocação da cura divina. Juntos, eles provocam uma catarse espiritual. Os fiéis da IMPD fazem fila para testemunhar, no altar ao lado do apóstolo e com exames médicos em punho, que a medicina já os havia desenganado, mas que a intervenção milagrosa os salvou. “Na Igreja Mundial, o toque no corpo de Santiago é muito valorizado”, diz o sociólogo da religião Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo (USP). Aos 61 anos, a católica catarinense Aledir Lachewtz, 61 anos, levou fotos e roupas de sua tia octogenária que sofria com um edema pulmonar para serem abençoadas em um culto na IMPD. “Os médicos diziam que não tinha mais jeito”, conta Aledir. “Mas, depois das bênçãos, novos exames não apontaram mais nada. O apóstolo tem muito poder de cura.” Essa espécie de pronto-socorro espiritual, como define o teólogo Edin Abumansur, da PUC-SP, floresce de modo particular na Mundial. Enquanto Santiago prega, dezenas de placas com os dizeres “Aqui tem milagre” são levantadas por obreiros para auxiliá-lo. Selecionado previamente e de posse de exames médicos que revelariam primeiro a enfermidade e, em seguida, o desaparecimento dela – chamado na IMPD de “o antes e o depois” –, o fiel é alçado ao microfone ao lado do pastor. E é nessa hora que o líder da Igreja Mundial vira astro.

Do alto de seu 1,90 e 103 quilos (chegou a ter 153, mas emagreceu após uma cirurgia bariátrica, há oito anos), o apóstolo grampeia o rosto da pessoa contra o seu peito. Abraça, chora e grita, como fez com a mãe que atribuiu a cura de sua filha de 6 anos, que voltou a andar e a falar contrariando prognósticos médicos, segundo ela, à fé e às orações feitas na IMPD. “Esse Deus é poderoooso! Isso é para sacudir o barraco do cramunhão e botar pra baixo!”, berra o religioso. Ricardo Mariano, professor do programa de pós-graduação em ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e um dos maiores especialistas do Brasil em movimento neopentecostal, contextualiza: “A ênfase pentecostal na cura divina já tem mais de 60 anos e foi uma das principais responsáveis pelo crescimento desse movimento religioso na América Latina e na África. Desde então, constitui uma das iscas mais atraentes de potenciais adeptos aos templos.”
Além da eloquência com que evangeliza, Santiago ficou conhecido por usar chapéus típicos de quem se criou no meio do mato. Assim também é visto em seus finais de semana, que acontecem, como ele diz, às quartas-feiras. Nesses dias, ele se tranca em um sítio, em Santa Isabel, a 50 quilômetros de São Paulo. Lá, desfruta de um pesqueiro, da piscina e do campo de futebol, onde organiza e disputa campeonatos entre times formados por membros de seu ministério. “Mas o que gosto mesmo é de sentar na beira do rio, com minha varinha de pescar”, diz. “Sou um sujeito de pouca educação. É uma coisa de chucro, de caipira”, completa ele, uma espécie de Tim Maia do altar, que passa boa parte do culto distribuindo broncas em obreiros, cinegrafistas e músicos que o acompanham. “Ô, oreiúdo (orelhudo), abre passagem para a mulher chegar até aqui”, disse o chefe da IMPD a um pastor, no culto do domingo 9, provocando gargalhadas nos súditos.

Nem mesmo a esposa, a bispa Franciléia, com quem vive há 26 anos, e as duas filhas do casal, Rachel, 25, e Juliana, 23, que também trabalham em prol do ministério, escapam de seus pitos. O apóstolo também é conhecido por ser incansável na rotina de sua Mundial. Há dias em que nem volta para casa. “Tenho um quarto na igreja”, conta Santiago, referindo-se ao templo do Brás. “Em casa, tenho dormido três, quatro vezes no mês”, completa ele, que diz desfrutar, por noite, de apenas quatro horas de sono. Membro da IMPD, Fernando Trizi reforça o fato. “Antigamente, muitos fiéis dormiam aqui na igreja. E, algumas vezes, o apóstolo acordava de madrugada, descia do quarto e, de pijama, orava com eles.” Ao valorizar a ingenuidade e a simplicidade, o religioso prosperou. “O que chama mais a atenção é a emergência de uma autoridade religiosa pentecostal de expressão nacional negra, tal como o restante da cúpula da igreja”, diz Mariano, autor de “Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil” (Edições Loyola, 1999). Ao contrário de outras neopentecostais de peso, como a Renascer e a Universal, que ficaram mais requintadas em relação ao público que as frequenta, prometendo prosperidade àqueles que também desejam ascensão material, a Mundial tem acolhido a classe menos favorecida, um aglomerado de gente humilde que não se identifica mais com as outras denominações.

Na IMPD, porém, essas pessoas enxergam em seu líder uma figura que, mesmo de terno e gravata e sob os holofotes, fala a língua delas. Foi por meio dessa habilidade inata que muitas personalidades deixaram para trás o passado sofrido e se tornaram notórias. “O Valdemiro é como o Silvio Santos ou o Lula. O camelô que deu certo, mas nunca deixou de ser camelô. O metalúrgico que virou presidente da República, mas não deixou de ser metalúrgico”, compara Bitun. Os astro evangélico promete milagres como se contasse um causo. Apelo irresistível aos corações aflitos.

Nota: Há vários aspectos que poderiam ser comentados diante de uma reportagem ampla como esta dedicada ao movimento da Igreja Mundial, capitaneado por Valdemiro Santiago. O primeiro deles é que está mais do que provado que as pessoas possuem necessidades não supridas apenas pela vida material comum. Sofrem de males emocionais, físicos e espirituais e estão sedentas à procura de respostas imediatas para seus problemas e desafios. Neste ponto, a Mundial e outras denominações têm dado atenção a elas, porém com enfoque em seus objetivos, é claro, que consistem, também, em vender sua ideologia e crescer espantosamente com este atendimento às necessidades imediatas da população em geral. Porém, nem sempre isso significa necessariamente crescer espiritualmente a partir do conhecimento de Deus tal como revelado na Bíblia Sagrada. A Bíblia pode ser utilizada de várias formas, inclusive para se chegar a propósitos bem pessoais e diferentes daqueles para os quais foi inspirada. Este é o primeiro ponto: movimentos como este parecem atender a necessidades físicas e emocionais imediatas, mas talvez não vão ao cerne das questões.
Digo isso porque decisões carregadas unicamente de emoção e mesmo curas físicas atribuídas a Deus não significam uma vida plena, em abundância como o próprio Jesus mencionou no evangelho de João, capítulo 10. Há uma trabalho baseado essencialmente na Bíblia feito para que as pessoas entendam Deus não como simplesmente um doador de bênçãos emocionais e físicas por um determinado período ou sempre que se quer, mas como Aquele que perdoa, livra da culpa do pecado, dá paz em meio às tragédias da vida e consola o ferido. Além disso, o próprio Deus, na Bíblia a partir de uma leitura séria, mostra que o corpo de cada pessoa é um templo a ser cultivado sempre e não destruído ou tratado de qualquer maneira. O conceito de se fazer o que se bem entende com o corpo e com a mente para, então, recorrer a Deus como um mero curador de males é estranha. Jesus mesmo, ao curar doentes de todos os níveis, fazia questão de relacionar a cura a uma mudança de vida espiritualmente. Isso, porém, recebe pouco ou nenhum destaque em recentes movimentos religiosos populares. 
Por outro lado, a aproximação do povo que tão bem fazem os movimentos pentecostais modernos nos faz pensar na importância de se chegar ao coração das pessoas. A estratégia é precisamente a mesma utilizada por Jesus Cristo. Questiono, no entanto, o conteúdo oferecido. Vejo algo perecível que se esvai em pouco tempo e causa neste tipo de crente uma dependência da estrutura montada. Consequentemente há um forte apego à denominação e aos líderes ou ao líder humano. Jesus demonstrou que era mais saudável se apegar a Deus e não a milagres, curas e às operações em si. Com muita propriedade, falando aos discípulos por ocasião do envio dos setenta em missão, Cristo afirmou, conforme Lucas 10:20 que "mas não vos alegreis porque os espíritos se vos submetem, alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus". 

 
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