Filme aborda oração de mãe por filho roqueiro

quinta-feira, 22 de setembro de 2011 0 comentários


Gospel Prime, 08.09.2011.

A Canzion Films Brasil, parte do Grupo Canzion, lançará nos cinemas brasileiros o filme “Poema de Salvação”, primeiro filme cristão a ser lançado no Cinemark. Estrelado por Gozalo Senestrari que interpretará Pablo, com elenco formado por Irina Alonso, Fernando Rosarolli e Soledad Beilis, entre outros. Inspirado na vida do cantor argentino Pablo Olivares, o filme será exibido pela rede Cinemark e narra uma trajetória de drogas, ocultismo e o poder da oração de uma mãe.
Pablo Olivares é um menino talentoso e inquieto, nascido em uma família cristã. Sua mãe, Carmem, dedica todo seu tempo a educá-lo de acordo com os princípios bíblicos, cultivando nele desde pequeno o amor pela música. Roberto, seu pai, dedica-se principalmente aos negócios, mantendo-se distante da vida de Pablo. Diante da ausência emocional de seu pai, Pablo se junta com amigos que o apresentam ao mundo do rock’n’roll e ele começa a se sentir atraído pelo ocultismo.
Sua habilidade para a música se torna evidente e embora Carmem acredite em seu talento, o rock é uma questão que ela não apoiará. Carmem tenta de tudo para restabelecer o relacionamento com seu filho e, fiel a seus princípios, ora incessantemente por ele durante quatorze anos. O constante confronto entre Pablo e sua mãe logo deixa de ser uma questão meramente familiar e se transforma em um campo de batalha pela salvação do jovem. Um drama inspirado em uma história real, filmado na Argentina, do diretor Arturo Allen (dos curta-metragens “Bandeira Branca” e “Não se Renda”).
O lançamento do filme será no dia 30 de setembro, com pré estreia anunciada para o dia 23, apenas para convidados. O filme já foi exibido em diversos países da América Latina e EUA, atingindo público superior a 500 mil pessoas. No Brasil, a Canzion Films Brasil pretende mostrar que o cinema cristão possui força e que sua exibição na rede mundial de cinemas Cinemark produzirá transformações em diversas famílias que passam, passaram ou passarão pelo mesmo problema. Pela primeira vez na história, um filme, exclusivamente cristão, com uma mensagem de adoração e louvor, será exibido nas salas da cidade de São Paulo, e em breve nas principais capitais do Brasil.

Veja trailler



Nota: Não vi esse filme (baseado em uma história real), mas a sinopse dá a entender que se trata de uma produção com abordagem cristã, especificamente de oração intercessora. Considero importante que sejam divulgados materiais que possam levar as pessoas a refletirem sobre as lutas espirituais que se travam nas famílias, especialmente quando um dos ingredientes é o rock. Já fui roqueiro e sei o grau de influência perniciosa e os péssimos conceitos que são transmitidos através de grande parte das músicas desse gênero musical, assim com em outros também.
Parece, em uma primeira avaliação, que não seja apenas o rock o problema ali, mas o envolvimento do protagonista com atividades que não são compatíveis com os ensinamentos bíblicos. Respeito a crença de quem pratica ocultismo, mas é importante que haja oportunidade de se apresentar outros pontos de vista em relação a esse assunto e não apenas o tradicional enfoque do cinema norte-americano.

Revista apresenta denúncia sobre falsos artigos de benefícios de medicamentos

domingo, 18 de setembro de 2011 0 comentários

Coluna de Bernardo Esteves, Revista Piauí.

Um espectro assombra a literatura médica. Continuam vindo à tona episódios em que a indústria farmacêutica patrocina artigos que promovem seus produtos, assinados por pesquisadores aparentemente independentes. Para discutir a questão, a revista PLoS Medicine publicou em agosto uma série de artigos sobre o tema, incluindo um relato em primeira pessoa de uma ghostwriter arrependida que por 11 anos trabalhou para a indústria farmacêutica. A revista criou ainda um portal que reúne todo o material já publicado sobre o assunto em suas páginas.
Não vem de hoje o envolvimento dessa revista com o combate à autoria fantasma, como se convencionou chamar o fenômeno (do inglês ghostwriting). Em 2009, a publicação ajudou a trazer à tona cerca de 1.500 documentos que comprometiam a gigante da indústria farmacêutica Wyeth. Os documentos mostravam que a companhia promovera a publicação de artigos que destacavam as qualidades de seus medicamentos para a reposição hormonal para mulheres, fazendo vista grossa para seus efeitos colaterais – que incluíam o risco de doenças cardiovasculares e câncer de mama. Os documentos, trazidos a público em parceria com o New York Times, revelam que a empresa pagou autores fantasmas envolvidos na publicação de 26 artigos publicados entre 1998 e 2005.

Naquela ocasião, a PLoS Medicine qualificou num editorial o episódio como “uma das mais convincentes exposições já vistas de manipulação e abuso sistemáticos da publicação acadêmica pela indústria farmacêutica e por seus parceiros comerciais”.

Dois anos depois, a revista revisitou o caso em três artigos e um editorial. Um texto assinado por Simon Stern e Trudo Lemmens defende que os autores que emprestam seu nome e credibilidade a artigos escritos na verdade por representantes da indústria farmacêutica sejam legalmente punidos, com sanções que não se restrinjam ao universo acadêmico. Um outro artigo, escrito por Alastair Matheson, destrincha as diretrizes do Comitê Internacional de Editores de Periódicos Médicos para a definição do que constitui a autoria de um trabalho científico e mostra como elas legitimam a prática da autoria fantasma em proveito dos interesses comerciais das grandes companhias.

A peça mais interessante do pacote, no entanto, é um relato pessoal de uma bióloga que, por 11 anos, trabalhou como ghostwriter da indústria farmacêutica. Em texto escrito na primeira pessoa, Linda Logdberg, vinculada ao Centro de Ciências Fernbank, em Atlanta (EUA), conta que escreveu, para uma companhia cujo nome ela mantém em sigilo, artigos acadêmicos, mas também uma série de outros documentos – apresentações de slides, monografias, planos de publicação etc.

No início, Logdberg não fazia questionamentos éticos sobre seu trabalho – “por muitos anos considerei meu papel similar àquele de um técnico bem pago”, escreveu. Ao discutir suas motivações, a bióloga contou que começou a fazer esse trabalho por ter perdido o gosto pela carreira acadêmica. A flexibilidade de trabalhar em casa e a possibilidade de interagir com pesquisadores de alto nível também foram fatores importantes, mas talvez não o mais fundamental deles. “O pagamento era bom”, escreveu a bióloga. “Realmente bom, especialmente se comparado com o salário típico de uma professora assistente.”

Com o tempo, o trabalho começou a perder o charme e a bióloga passou a se ver às voltas com conflitos éticos consigo mesma – como no caso de um anticoncepcional que causava sangramento vaginal grave e imprevisível em algumas mulheres. “Meu trabalho era redigir o rascunho de uma monografia que delinearia os benefícios do produto, um dos quais, segundo o cliente, seria o fato de a mulher poder ao menos antecipar o sangramento, embora ele pudesse ser grave.”

A gota d’água veio na revisão de um artigo sobre uma droga contra o déficit de atenção com hiperatividade – um distúrbio que acomete dois dos filhos da bióloga. Na impossibilidade de discutir um ponto questionável do artigo que estava revisando, ela decidiu abandonar a carreira de ghostwriter e decidiu entrar em contato com o New York Times para denunciar o caso. Ela conta ter sido ameaçada de retaliação legal por violação de uma cláusula de confidencialidade.

A iniciativa de Logdberg é louvável, mas localizada. Em editorial sobre o tema publicado em agosto, a PLoS Medicine admite que há novas perspectivas sobre o problema, mas poucas soluções em vista. Um primeiro passo, como sugere o texto, talvez seja encarar o problema de frente: “Todos envolvidos na indústria da publicação médica, incluindo periódicos, instituições e as agências reguladoras de pesquisa precisam tomar ações específicas para erradicar as práticas corruptas de autoria aparentemente endêmicas que ainda existem na literatura médica – eles podem começar admitindo a extensão do problema.”

Original em http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/questoes-da-ciencia/geral/fantasma-arrependido

Nota: Não é de hoje que as indústrias farmacêuticas estão envoltas em suspeitas de colocar a questão comercial totalmente acima da médica no que diz respeito à divulgação dos benefícios e e efeitos colaterais dos medicamentos. É evidente que a tecnologia médica está avançando e que isso tem contribuído para prolongar a vida e ajudar no combate a males que antes não ocorria. Mas essa reportagem serve como um importante alerta quanto à necessidade de encarar o uso de medicamentos como uma necessidade em casos clinicamente definidos. E não fazer dos remédios "amigos" constantes para toda e qualquer hora, principalmente sem prescrição de um profissional médico e como hábito de vida.
Bons hábitos mesmo devem vir da prática de exercícios, alimentação saudável, repouso, exercícios físicos, entre outras rotinas que ajudam a prevenir certos males e conferem disposição a mais para o cotidiano de trabalho e afazeres em geral. Não estou advogando aqui a eliminação de medicamentos até porque isso não é razoável, mas o olho precisa estar bem aberto para essa indústria que, cada vez, mostra-se mais indigna de confiança.

Combate legítimo à corrupção também é cidadania

quinta-feira, 8 de setembro de 2011 2 comentários

Meu comentário hoje no programa Conexão NT da Rádio Novo Tempo - www.novotempo.com/radio. Quadro Conexão Cidadania.

Ontem, em pleno feriado de 7 de setembro, aniversário de 189 anos da dita independência política do Brasil em relação ao antigo Império português, hoje em franca decadência, uma macha contra a corrupção chamou a atenção de muita gente. Segundo noticiou a imprensa brasileira em geral, a Marcha contra a Corrupção reuniu milhares de pessoas em Brasília, segundo a Polícia Militar.

A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal calcula em cerca de 60 mil o público na Esplanada dos Ministérios durante a manhã da quarta-feira. Destes, entre 45 mil e 50 mil assistiram ao desfile militar. O público da marcha foi estimado pela secretaria em 12 mil --sendo que parte dele assistiu ao desfile e se integrou ao protesto depois.

Independente do número, ao que parece a marcha foi organizada principalmente através das redes sociais na web e procurou banir interesses de partidos políticos. Se essa marcha efetivamente foi uma manifestação popular, originária de gente que está incomodada com a sequência infindável de escândalos públicos de maracutaias, tudo bem. Aí se enquadra em um ato de legítima e necessária cidadania. Afinal de contas, exigir decência no serviço público em todas as suas instâncias, diga-se de passagem, é um direito do cidadão.

Se houver dedos de partidos políticos, então esse tipo de manifestação perde sua credibilidade.

E vou além. Nós, cidadãos, precisamos entender que combate à corrupção acontece desde os pequenos atos corriqueiros até as grandes decisões que envolvem bilhões de dólares nas esferas governamentais. Devemos cobrar idoneidade dos vereadores, prefeitos, governadores, deputados, senadores, ministros, presidente da República, mas precisamos agir de igual maneira em nossas transações, em nossos dever diário. Caso contrário, é pensar que corrupção é algo externo a nós, quando na verdade estamos totalmente envolvidos nisso também.

11 de Setembro dez anos depois: mais vulneráveis e dependentes

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 0 comentários

Felipe Lemos é jornalista e mantenedor desse blog - @felipelemos29 

Eu me lembro do lugar onde estava naquele estranho dia 11 de setembro de 2001. Trabalhava em um jornal, quando, a exemplo de milhões de pessoas, praticamente assisti atônito, inerte e sem qualquer reação imediata às imagens transmitidas em tempo real pela CNN da destruição das torres gêmeas do imponente World Trade Center, em Nova York, capital do mundo ocidental. Depois que me dei conta de parte da gravidade do assunto, do viés terrorista, pus-me a realizar o típico trabalho jornalístico de contactar fontes, ler material a respeito do tema e continuar acompanhando os primeiros comentários.

Durante os dez anos que se seguiram e até hoje, milhares de análises e inferências estão registradas por especialistas, analistas, sobreviventes, jornalistas e toda a sorte de gente que se dispôs a pensar no que aquele fato representou para a humanidade. Houve tanta repercussão sobre o episódio que o assunto permaneceu nas discussões em âmbito mundial e no décimo fatídico aniversário está mais vivo do que nunca.

O jornalista Geneton Moraes Neto, repórter especial da TV Globo, por exemplo, entrevistou um soldado norte-americano chamado Bradley Manning que se disse sensibilizado ao ver crianças prestes a serem bombardeadas em uma das tantas batalhas dentro da famigerada ofensiva bélica contra o Iraque, protagonizada pelos Estados Unidos, depois dos ataques de 11 de setembro. É um lado da moeda que pouco se vê. Mas encontraram, também, gente que chegou atrasada ao trabalho naquele dia e escapou da morte, outros que ajudaram a resgatar vítimas e um grupo que, em meio aos escombros e ao pânico generalizado, gravou imagens e sons. Teorias conspiratórias, de que os Estados Unidos mesmo é quem de alguma forma produziu aquele espetáculo de horror, também surgiram.

Apenas uma tragédia? – Gostei do que escreveu recentemente o colunista do The Wall Street Journal, Bret Stephens. Referindo-se à incapacidade de uma análise mais profunda do ocorrido e da tendência de se dissociar o ato pontual naquele dia de algumas das mais importantes repercussões que teve, ele diz que um ato do mal foi reduzido em nossa linguagem rebaixada a uma tragédia”. Concordo com ele. Não foi apenas uma tragédia, foi um marco que deixou profundas e necessárias reflexões em relação à geopolítica, à economia, ao comportamento humano diante de catástrofes, à noção de segurança mundial, entre outras áreas de conhecimento.

Uma palavra inevitavelmente adquiriu, a partir daquela data, conotação especial: terror. Rubens Antônio Barbosa, que à época era embaixador do Brasil nos Estados Unidos, em um longo artigo diz que “os atentados de 11 de setembro trouxeram o item terrorismo para o centro da agenda internacional, onde ela deverá permanecer no futuro previsível”. A era do terror foi oficialmente instalada pelos Estados Unidos com inimagináveis efeitos para a sociedade mundial. Não estou falando apenas de maior controle e rigor nos aeroportos internacionais e nem nas mudanças nos alertas de segurança que normalmente fazem parte da relação entre os países, mas da sensação psicológica provocada.

A percepção de uma iminente e constante ameaça terrorista, combinada às guerras promovidas pelos EUA e aliados ao Iraque e Afeganistão, deixou muitas pessoas com a impressão de que estamos todos vulneráveis e inseguros. Ou seja, não há mais segurança no mundo depois de 11 de setembro de 2001. O governo norte-americano demonstrou que a solução era prender e/ou matar terroristas nem que para isso fosse necessário destruir tudo o que estivesse à frente. Mas desde então, apesar de todo esse esforço político, o mundo não está mais seguro e a paz não está mais próxima do que estava nas eras de conflitos anteriores.

Dependência – A vulnerabilidade quase sempre pressupõe dependência. Se o planeta pós-11 de setembro está mais desprotegido do que antes, torna-se dependente de algum ato que possa tirá-lo dessa condição. Os organismos internacionais políticos e religiosos se apresentam com suas soluções caseiras; seus atos, suas reuniões, suas propostas de paz, seus acordos, seus movimentos ecumênicos, seus discursos conciliatórios. A turbulência mundial continua soando nos ouvidos de muitos. O ambiente dez anos depois de 11 de setembro não é dos melhores. Crises econômicas, falência moral de governos e de instituições públicas e o conceito do terror pairando sobre a mente da população exigem uma ação efetiva, pois estamos dependentes de uma saída.

Não é fatalismo, mas realismo. Isso me faz pensar em um discurso muito estranho de Jesus Cristo a Seus discípulos pouco tempo antes de Sua morte. Cristo predisse muitas dificuldades para aqueles que O seguiam, tanto em relação à destruição do templo em Jerusalém (70 d.C.) quanto aos tempos finais em um futuro distante para eles. Mas no evangelho de Lucas, capítulo 21 e versículo 28, Ele dá um alento curioso: “quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima”.

Desde o 11 de setembro, olha-se muito para os lados, para as providências humanas que praticamente resultado algum têm trazido aos dilemas que se vive. O convite de Jesus Cristo parece mais sábio. Olhar para cima, encontrar em Deus respostas que se buscam diante desse senso (fabricado ou não, mas que existe hoje) de insegurança pessoal, de medo do desconhecido, de um terror que não se sabe direito o que é e nem quem é. Talvez essa seja a dependência de que precisamos.

Igrejas e cultos brasileiros expandem presença em Londres

domingo, 4 de setembro de 2011 1 comentários


BBC Brasil, 1º de Setembro de 2011.

Igrejas e cultos brasileiros vêm expandindo sua presença na capital britânica nos últimos anos, segundo analistas e líderes religiosos ouvidos pela BBC Brasil.

Só as igrejas evangélicas brasileiras em Londres já são mais de 80, de acordo com a Pastoral Alliance, que reúne pastores evangélicos na Grã-Bretanha, e a estimativa não inclui a Igreja Universal do Reino de Deus, que tem 16 templos na cidade.

Na lista do Consulado do Brasil, há cerca de 50 diferentes denominações registradas.

"Enquanto nos anos 90 havia poucas igrejas evangélicas brasileiras em Londres, esse número vem crescendo rapidamente, com a maioria das igrejas tendo sido fundada no início dos anos 2000", diz Daniel Clark, pesquisador da University of Wales.

A Capelania Católica Brasileira, que começou a funcionar em Londres há 15 anos com apenas uma missa semanal em português, já celebra missas em seis igrejas espalhadas pela cidade, por exemplo. E basta olhar os classificados de uma das várias revistas destinadas à comunidade brasileira em Londres para encontrar também informações sobre centros espíritas e terreiros de umbanda e candomblé na capital britânica e seus arredores.

Religiões de origem amazônica, que utilizam o chá ayahuasca (ou hoasca) em seus rituais – como o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal e o Santo Daime - também estão presentes na capital britânica.

"É a exportação de uma cultura. Um dos temas culturais do Brasil é a diversidade religiosa e isso acaba se reproduzindo no exterior", diz Pedro Strozenberg, secretário-executivo do Iser, o Instituto de Estudos da Religião.

Missões

Segundo pesquisadores, após séculos como destino de missões religiosas, o Brasil começou, nos anos 80, a exportar igrejas e cultos junto com as levas de brasileiros que migravam para o exterior.

O Brasil pode ser visto como a maior nação católica do mundo, a capital mundial do espiritismo e o país com a segunda maior comunidade de protestantes praticantes - atrás apenas dos Estados Unidos em números absolutos - além de ser o berço de diversas outras crenças.

Hoje, a multiplicidade de credos vista no Brasil se reflete nos países em que a comunidade brasileira ganha peso.

"Em linhas gerais, o que acontece é que quase todo o campo religioso brasileiro se reproduz no exterior, mas não nas mesmas proporções em que existem no Brasil. O pentecostalismo, por exemplo, que cresce muito em termos de visibilidade no Brasil, se torna ainda mais visível no exterior", diz Paul Freston, professor catedrático em Religião e Política em Contexto Global da Wilfrid Laurier University, no Canadá.

Para a pesquisadora Christina Vital, professora de antropologia da Universidade Federal Fluminense, isso talvez possa ser explicado pelo sucesso das igrejas evangélicas em ajudar a solucionar problemas frequentemente enfrentados pelos imigrantes brasileiros.

"As missões dessas igrejas são voltadas a proporcionar uma rede de proteção espiritual e material para pessoas que estão nas margens da sociedade. Isso também pode incluir a questão da ilegalidade para imigrantes."

Dinâmica religiosa

"O catolicismo é mais lento para se deslocar. As igrejas evangélicas em geral têm mais facilidade, porque estão mais descentralizadas."
Paul Freston, professor da Wilfrid Laurier University

Paul Freston diz que as igrejas evangélicas brasileiras no exterior ajudariam seus fiéis a manter uma atitude positiva em relação ao trabalho duro que muitos deles têm de fazer, além de estabelecer redes de contato que ajudariam os imigrantes a encontrar lugares para morar e trabalhar.

As igrejas evangélicas também seriam muito mais rápidas em acompanhar a movimentação de brasileiros ao redor do mundo, principalmente as pentecostais.

"O catolicismo é mais lento para se deslocar. As igrejas evangélicas em geral têm mais facilidade, porque estão mais descentralizadas, são mais autônomas e abertas à iniciativa leiga. Elas acompanham com mais facilidade os movimentos populacionais", diz Freston.

Um exemplo disso é o Ministério Luz para os Povos, que abriu sua primeira igreja em Londres há apenas um ano.

Anne e Olair são os pastores do Ministério Luz para os Povos em Londres

Os pastores Olair e Anne Oliveira, que já faziam parte da igreja em sua cidade natal, Trindade, a 17 quilômetros de Goiânia, vieram para Londres em 2008.

Na capital britânica, eles frequentaram outras igrejas enquanto ele trabalhava como operário de construção e ela, como faxineira e babá, até que eles decidiram entrar em contato com a coordenação do Ministério Luz para os Povos na Europa e abrir uma igreja em Londres.

"Hoje, temos cerca de 40 fiéis frequentando o ministério. A maioria deles é de brasileiros, mas temos também portugueses, africanos e italianos", conta o pastor Olair.

Segundo os pesquisadores, a falta de dados concretos sobre a população brasileira no exterior – estimada em algo entre dois a três milhões de pessoas em todo o mundo, muitos deles ilegais – torna muito difícil estimar com precisão o número de frequentadores de cada um dos cultos e igrejas de origem brasileira.

"No Brasil, há o censo, que pergunta com que religião o entrevistado se identifica e com que frequência pratica sua crença. Sobre a comunidade brasileira em Londres, não temos dado nenhum. Não se sabe universo total, nem com que religião as pessoas se identificam", diz Freston.

"Além disso, é um universo muito fluido, há igrejas fechando, enquanto outras surgem a todo momento."

Nota: Esse dito crescimento, pontualmente entre imigrantes, evidencia algumas coisas. Pelo menos em uma observação rápida, é possível deduzir que os habitantes locais não parecem muito interessados, em sua maioria, pela religião e por algum contato maior com Deus. O jeito, então, na ótica de pessoas que estão abrindo igrejas por lá, é trabalhar com quem é estrangeiro e teoricamente estaria mais suscetível à influência religiosa, sobretudo evangélica.
Por outro lado, esse conceito de "exportação religiosa" soa perigoso. Que tipo de conceito está sendo "exportado"? Seria, por acaso, a religião sem compromisso com obediência a Deus, mas apenas interesse em encontrar solução para questões materiais e temporais? Receio que o mesmo fenômeno que tem ocorrido por aqui no Brasil (comercialização da fé) esteja sendo levado para países historicamente secularizados como a Inglaterra em uma tentativa, apenas, de se encontrar um novo filão para quem enxergar religião apenas como um negócio lucrativo.
Não tenho direito de julgar as atitudes de quem está abrindo templos ou serviços religiosos por lá, ainda mais por não conhecer a fundo a estrutura, mas pelas informações da série de reportagens da BBC Brasil, é algo a ser pensado de maneira crítica e racional.
A expansão da fé cristã é uma verdade incontestável, mas, ao mesmo tempo, o crescimento do conceito de mercantilização da religião também é percebido com grande força. E não seria uma má ideia, para os aproveitadores de plantão, criar novos nichos de negócio além-mar. Em detrimento, é claro, da fé simples descrita na Bíblia Sagrada.

Escola suspende oração após reclamações de pais

quarta-feira, 24 de agosto de 2011 1 comentários




Foto produzida por Correio Braziliense
Correio Braziliense Web, 20.08.2011.
“Papai do Céu, eu agradeço.” Os agradecimentos são encerrados com a expressão “amém”. O ato religioso desencadeou uma polêmica entre pais de alunos entre 3 e 5 anos do Jardim de Infância da 404 Norte. A tradição existe há 47 anos, mas foi interrompida na última segunda-feira, após uma denúncia na Ouvidoria da Secretaria de Educação do DF. De um lado, estão pais que defendem o momento de gratidão. Do outro, os que alegam a laicidade do Estado e afirmam que a religião deve ser tratada de forma facultativa, a partir do ensino fundamental. A Secretaria de Educação garante que as escolas públicas devem abordar os valores humanos, sem focar em religião.

Segundo a diretora da escola, Rosimara Albuquerque, o momento da acolhida é feito no início do turno escolar. A finalização ficava por conta de um aluno fazendo os agradecimentos. “Eles faziam orações espontâneas e relatavam os agradecimentos a Deus, com a religiosidade que traziam de casa. Mas isso estava ofendendo alguns pais e alunos”, contou a diretora. Há seis anos como gestora da escola, Rosimara garante que essa é a primeira vez que o momento religioso é questionado. “Todos sempre adoraram, mas esse ato não ocorre desde segunda-feira. Agora, queremos entrar em um consenso de acordo com o que estabelece a lei”, disse.

Conforme a Secretaria de Educação, os 180 pais do Jardim de Infância da 404 Norte se dividem em ateus, budistas, politeístas e cristãos. Oito deles defendem o fim da atividade com teor religioso dentro da escola. “As crianças têm entre 3 e 5 anos. Será que esse é o momento de lidar com isso dentro da escola?”, questiona Heliane Batista Carvalho, 40 anos, mãe de um menino de 4 anos. A radialista conta que o filho canta músicas com o nome de Jesus. “Ele aprendeu na escola. Tenho o direito e a prerrogativa de o meu filho ter educação religiosa apenas familiar” afirma.

Para o secretário adjunto de Educação, Erasto Fortes, a atitude do jardim de infância infringe a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). “A legislação é muito clara, em que acolhe o ensino religioso como matéria facultativa, com início nos ensinos fundamental e médio. As escolas de ensino público não podem fazer nenhuma atividade religiosa obrigatória a todos os alunos”, informou.

A psicóloga Márcia Bandeira de Souza Rocha, 34 anos, estudou no Jardim de Infância da 404 Norte há 30 anos. Hoje, o filho dela, Miguel Rocha, 4, aprende no mesmo lugar. A criança está matriculada na escola há dois anos e sempre participou dos momentos religiosos. “É uma hora de pausa para dividir sentimentos de proteção, amor e carinho. A escola é um ambiente de socialização entre as crianças, que são de todas as religiões e culturas”, conta.

A psicóloga está responsável por colher assinaturas para um abaixo-assinado, pelo qual os pais reivindicam a permanência da oração na entrada das crianças; a continuidade das festas cristãs, como Natal e Páscoa; e também o ensino de músicas que falam de Deus. O documento conta com 110 assinaturas. Na próxima semana, uma reunião com os pais, os funcionários da escola e representantes da Regional de Ensino deve decidir o futuro do momento de agradecimento do Jardim de Infância da 404 Norte.

Exigências
A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O artigo 33 determina que "o ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo". A lei diz ainda que, para definir os conteúdos do ensino religioso, os sistemas de ensino devem ouvir entidades civis, constituídas pelas diferentes denominações religiosas.

Nota: Realmente, essa interpretação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional foi bastante abrangente e considerou a oração diária com os pequenos alunos como ensino religioso. Entendo e respeito a opinião dos pais que destacam o respeito à liberdade de crença, mas talvez a atitude não precisasse ser tão incisiva. Não me parece, de forma alguma, aula de ensino religioso o que era praticado na escola citada. Dá a impressão de ser um momento em que os alunos espontaneamente faziam orações e, os que não foram assim ensinados, certamente não sofriam qualquer coação ou obrigatoriedade de exercer prática religiosa.
Agora é inegável que a religião faz parte da cultura de qualquer povo e não pode ser simplesmente negada ou desprezada. Que as escolas públicas, então, criem algum mecanismo de ensinar valores morais aos estudantes, pois isso está em grande falta, não apenas nos estabelecimentos de ensino (que refletem, a bem da verdade, o que acontece antes), mas nas famílias. Essa seria uma contribuição importante. O estado é laico mesmo, até por força de lei, mas a religiosidade faz parte do cotidiano dos brasileiros. E essa harmonização precisa ser discutida de uma maneira mais séria e sem preconceitos.

Sugiro a leitura, também, de uma reportagem a respeito do assunto em http://abj-noticias.blogspot.com/2011/08/teologo-defende-democracia-em-aulas-de.html.

Pesquisa mostra surgimento de evangélicos não praticantes

domingo, 21 de agosto de 2011 0 comentários


 Revista IstoÉ, semana de 21 de agosto de 2011.     

Acaba de nascer no País uma nova categoria religiosa, a dos evangélicos não praticantes. São os fiéis que creem, mas não pertencem a nenhuma denominação. O surgimento dela já era aguardado, uma vez que os católicos, ainda maioria, perdem espaço a cada ano para o conglomerado formado por protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais. Sendo assim, é cada vez maior o número de brasileiros que nascem em berço evangélico – e, como muitos católicos, não praticam sua fé. Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram, na semana passada, que evangélicos de origem que não mantêm vínculos com a crença saltaram, em seis anos, de insignificantes 0,7% para 2,9%. Em números absolutos, são quatro milhões de brasileiros a mais nessa condição. Essa é uma das constatações que estatísticos e pesquisadores estão produzindo recentemente, às quais ISTOÉ teve acesso, formando um novo panorama religioso no País.


Isso só é possível porque o universo espiritual está tomado por gente que constrói a sua fé sem seguir a cartilha de uma denominação. Se outrora o padre ou o pastor produziam sentido à vida das pessoas de muitas comunidades, atualmente celebridades, empresários e esportistas, só para citar três exemplos, dividem esse espaço com essas lideranças. Assim, muitas vezes, os fiéis interpretam a sua trajetória e o mundo que os cerca de uma maneira pessoal, sem se valer da orientação religiosa. Esse fenômeno, conhecido como secularização, revelou o enfraquecimento da transmissão das tradições, implicou a proliferação de igrejas e fez nascer a migração religiosa, uma prática presente até mesmo entre os que se dizem sem religião (ateus, agnósticos e os que creem em algo, mas não participam de nenhum grupo religioso). É muito provável, portanto, que os evangélicos pesquisados pelo IBGE que se disseram desvinculados da sua instituição estejam, como muitos brasileiros, experimentando outras crenças.

É cada vez maior a circulação de um fiel por diferentes denominações – ao mesmo tempo que decresce a lealdade a uma única instituição religiosa. Em 2006, um levantamento feito pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) e organizado pela especialista em sociologia da religião Sílvia Fernandes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), verificou que cerca de um quarto dos 2.870 entrevistados já havia trocado de crença. Outro estudo, do ano passado, produzido pela professora Sandra Duarte de Souza, de ciências sociais e religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), para seu trabalho de pós-doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp), revelou que 53% das pessoas (o universo pesquisado foi de 433 evangélicos) já haviam participado de outros grupos religiosos.

"Os indivíduos estão numa fase de experimentação do religioso, seja ele institucionalizado ou não, e, nesse sentido, o desafio das igrejas estabelecidas é maior porque a pessoa pode escolher uma religião hoje e outra amanhã”, afirma Sílvia, da UFRRJ. “Os vínculos são mais frouxos, o que exige das instituições maior oferta de sentido para o fiel aderir a elas e permanecer. É tempo de mobilidade religiosa e pouca permanência.” Transitar por diferentes crenças é algo que já ocorre há algum tempo. A intensificação dessa prática, porém, tem produzido novos retratos. Denominadores comuns do mapa da circulação da fé pregam que católicos se tornam evangélicos ou espíritas, assim como pentecostais e neopentecostais recebem fiéis de religiões afro-brasileiras e do protestantismo histórico. Estudos recentes revelam também que o caminho contrário a essas peregrinações já é uma realidade.

Em sua dissertação de mestrado sobre as motivações de gênero para o trânsito de pentecostais para igrejas metodistas, defendida na Umesp, a psicóloga Patrícia Cristina da Silva Souza Alves verificou, depois de entrevistar 193 protestantes históricos, que 16,5% eram oriundos de igrejas pentecostais. Essa proporção era de 0,6% (27 vezes menor) em 1998, como consta no artigo “Trânsito religioso no Brasil”, produzido pelos pesquisadores Paula Montero e Ronaldo de Almeida, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Patrícia, o momento econômico do Brasil, que registra baixos índices de desemprego e ascensão socioeconômica da população, reduz a necessidade da bênção material, um dos principais chamarizes de uma parcela do pentecostalismo. “Por outro lado, desperta o olhar para valores inerentes ao cristianismo, como a ética e a moral cristã, bastante difundidas entre os protestantes históricos”, afirma.

Em busca desses valores, o serralheiro paraibano Marcos Aurélio Barbosa, 37 anos, passou a frequentar a Igreja Metodista há um ano e meio. Segundo ele, nela o culto é ofertado a Deus e não aos fiéis, como acontecia na pentecostal Assembleia de Deus, a instituição da qual Barbosa foi devoto por 16 anos, sendo sete como presbítero. O serralheiro cumpria à risca os rígidos usos e costumes impostos pela denominação. “Eu não vestia bermuda nem dormia sem camisa, não tinha tevê em casa, não bebia vinho, não ia ao cinema nem à praia porque era pecado”, conta. Com o tempo, o paraibano passou a questionar essas proibições e acabou migrando. “Na Metodista encontrei um Deus que perdoa, não um justiceiro.”

A teóloga Lídia Maria de Lima irá defender até o final do ano uma dissertação de mestrado sobre o trânsito de evangélicos para religiões afro-brasileiras. A pesquisadora já entrevistou 60 umbandistas e candomblecistas e verificou que 35% deles eram evangélicos antes de entrar para os cultos afros. Preterir as denominações cristãs por religiões de origem africana é outro tipo de migração até então pouco comum. Não é, porém, uma movimentação tão traumática, uma vez que o currículo religioso dos ex-evangélicos convertidos à umbanda ou ao candomblé revela, quase sempre, passagens por grupos de matriz africana em algum momento de suas vidas. Pai de santo há dois anos, o contador Silvio Garcia, 52 anos, tem a ficha religiosa marcada por cinco denominações distintas – e a umbanda é uma delas. Foi aos 14 anos, frequentando reuniões na casa de uma vizinha, que Garcia, batizado na Igreja Católica, aprendeu as magias da umbanda. Nessa época, também era assíduo frequentador de centros espíritas. Aos 30, ele passou a cursar uma faculdade de teologia cristã e, com o diploma a tiracolo, tornou-se presbítero de uma igreja protestante. Um ano depois, migrou para uma pentecostal, onde pastoreou fiéis por seis anos. “Mas essas igrejas comercializam a figura de Cristo e eu não me sentia feliz com a minha fé”, diz.

Transe - A teóloga Lídia sugere que os sistemas simbólicos das religiões evangélica e afro-brasileira têm favorecido a circulação de fiéis da primeira para a segunda. “Há uma singularidade de ritos, como o fenômeno do transe. Um dos entrevistados me disse que muito do que presenciava na Igreja Universal (do Reino de Deus) ele encontrou na umbanda”, diz. Em suas pesquisas, fiéis do sexo feminino foram as que mais cometeram infidelidade religiosa (67%). Os motivos que levam homens e mulheres a migrar de religião (leia quadro à pág. 60) foram investigados pela professora Sandra, da Umesp. Em outubro, suas conclusões serão publicadas em “Filosofia do Gênero em Face da Teologia: Espelho do

Uma diferença básica entre os sexos é que as mulheres mudam de religião em busca de graça para quem está a sua volta (a cura para filhos e maridos doentes ou a recuperação do casamento, por exemplo). Já os homens são motivados por problemas de fundo individual. Assim ocorreu com o empresário paulista Roberto Higuti, 45 anos, que se tornou evangélico para afastar o consumo e o tráfico de drogas de sua vida. Católico na infância, budista e adepto da Igreja Messiânica e da Seicho-No-Ie na adolescência, Higuti saiu de casa aos 15 anos e se tornou um fiel seguidor do mundo do crime. Sua relação com as drogas foi pontuada por internação em hospital psiquiátrico, prisão e duas tentativas de suicídio. Certo dia, cansado da falta de perspectivas, viu uma marca de cruz na parede, ajoelhou-se e disse: “Jesus, se tu existes mesmo, me tira dessa vida maldita.” Há cinco anos, o empresário é pastor da neopentecostal Igreja Bola de Neve, onde ministra dois cultos por semana. “Quero, agora, ganhar almas para o Senhor”, diz.

Antes de se fixar na Bola de Neve, Higuti experimentou outras quatro denominações evangélicas. Mobilidades intraevangélicas como as dele ocorrem com aproximadamente 40% dos adeptos de igrejas pentecostais e neopentecostais, segundo a especialista em sociologia da religião Sílvia, da UFRRJ. Os neopentecostais, porém, possuem uma particularidade. Seus fiéis trocam de igreja como quem descarta uma roupa velha: porque ela não serve mais. São a homogeneização da oferta religiosa e a maior visibilidade de algumas denominações que produzem esse efeito. “Esse grupo, antigamente, era o tal receptor universal de fiéis, para onde iam todas as religiões. Hoje, a singularidade dele é o fato de receber membros de outras neopentecostais”, diz Sandra, da Umesp. “Quanto mais acirrada a concorrência, maior a migração.” A exposição na mídia, fundamentalmente na tevê, é a principal estratégia dos neopentecostais para roubar adeptos da concorrente direta. E cada vez mais as pessoas estabelecem uma relação utilitária com a religião. De acordo com a pesquisadora Sandra, se não há o retorno (material, na maioria das vezes), o fiel procura outra prestadora de serviço religioso. Estima-se, por exemplo, que 70% dos atuais adeptos da Igreja Mundial – uma dissidente da Universal – tenham migrado para lá vindos da denominação de Edir Macedo. “Entre os neopentecostais não se busca mais um líder religioso, mas um mago que resolva tudo num estalar de dedos”, diz Sandra. “Essa magia faz sucesso, mas tem vida curta, uma vez que o fiel se afasta, caso não encontre logo o que quer.”

Sem religião - Cansada de pular de uma crença para outra, a artesã paulista Lucina Alves, 57 anos, não sente mais necessidade de pertencer a uma igreja. Há oito anos, ela diz ser do grupo dos sem-religião. No entanto, recorre a ritos de fé, principalmente católicos, espíritas e da Seicho-No-Ie, sempre que sente vontade de zelar pelo bem-estar de alguém. “Há um mês, fui até uma benzedeira ligada ao espiritismo para ajudar meu filho que passava por problemas conjugais”, diz. Dados do artigo “Trânsito religioso no Brasil” revelaram que 30,7% das pessoas que se encontram na categoria dos sem-religião frequentam algum serviço religioso anualmente e 20,3% fazem o mesmo mais de uma vez por mês. “Já participei de reuniões evangélicas de orações em casa de familiares”, conta Lucina.

A artesã não cultua santos, crê em Deus, Jesus Cristo e acende vela para anjos. No campo das ciências da religião, manifestações espirituais como as dela são recentes e vêm sendo tema de novos estudos. A migração de brasileiros para o islã é outro fenômeno que cresce no País. O número de convertidos na comunidade muçulmana do Rio de Janeiro, por exemplo, saltou de 15% em 1997 para 85% em 2009. Ex-umbandista que hoje atende por Ahmad Abdul-Haqq, o policial militar paulista Mario Alves da Silva Filho tem um inventário religioso de dar inveja. Batizado no catolicismo, aos 9 anos estreou na umbanda em uma gira de caboclo e baianos. Um ano depois, juntando moedas que ganhava dos pais, comprou seu primeiro livro, sobre bruxaria. Aos 14, passou a frequentar a Federação Espírita paulista, onde fez cursos para trabalhar com incorporações e psicografia. Aos 17 anos, trabalhou em ordens esotéricas ao mesmo tempo que dava expediente na umbanda. O policial, mestrando em sociologia da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), decidiu se converter ao islã quando fazia um retiro de padres jesuítas. Em uma noite, sonhou com um árabe que o indicava o islã como resposta para suas dúvidas. Aos 29 anos, ele entrou em uma mesquita e disse que queria ser muçulmano. Saiu dela batizado e, desde então, faz cinco orações e repete frases do “Alcorão” diariamente. “Descobri que sou uma criatura de Deus e voltarei ao seio do Criador.”

O restante da reportagem pode ser lido em http://www.istoe.com.br/reportagens/152980_O+NOVO+RETRATO+DA+FE+NO+BRASIL?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Nota: A reportagem é extensa, mas revela dados de uma ampla pesquisa. Duas coisas me chamaram a atenção especialmente no relato apresentado pelo jornalista Rodrigo Cardoso nessa reportagem da revista.
A primeira de que muita gente está deixando de se comprometer com igrejas ou religiões. Na reportagem é mencionada a expressão "construir a fé sem seguir a cartilha de uma denominação". É dito que muitos evangélicos estão interpretando as questões espirituais de uma maneira bastante particular e individual, ou seja, sem qualquer vínculo com instituições religiosas e, portanto, com pouco ou praticamente nenhuma outra referência a não ser sua própria individualidade.
Isso parece soar bem, mas tem outros aspectos que precisam ser relembrados. Apesar de haver muitas igrejas ou denominações, biblicamente a igreja, conforme o ideal apresentado por Cristo enquanto aqui esteve e confirmado pelos primeiros discípulos e apóstolos, tem uma função importante de ajudar na consolidação da fé. Pessoas com as mesmas crenças (e isso implica que uma igreja cristã, por exemplo, ensine realmente as crenças tais como foram ensinadas na Bíblia) se unem e se fortalecem mutuamente em um grupo. No livro de Hebreus, o auto declara que é importante que os cristãos "não deixem de se congregar". Além disso, outro aspecto que precisa ser enfatizado é a respeito do risco de se viver uma religião fundamentada em convicções pessoais e aparentemente dissociadas dos próprios conceitos que Deus estabeleceu.
Deus já deixou muito claro, na Bíblia Sagrada, que possui leis e que a adoração a Ele (que é a função primeira de um adorador, ou seja, de uma criatura Dele) não se dá de qualquer maneira. Essa adoração ocorre, no entanto, do jeito que Ele estabeleceu simplesmente porque Ele é Deus e somos Suas criaturas. O amor a Ele e a busca consequente por sua presença diariamente levam inevitavelmente a uma obediência não cega, mas racional e alicerçada em leis que expressam, na verdade, esse amor de maneira prática em relação a Ele e às pessoa ao nosso redor. Não dá para se sustentar uma fé individualista, alijada dos próprios conceitos que Deus estabeleceu. Não vejo isso como fé, mas uma expressão de convicções meramente pessoais e até autoajuda disfarçada.
Perigosa essa tendência, pois repele indiretamente Deus e quaisquer tipos de normas que Ele estabelece ao longo de toda a narrativa bíblica e que fazem parte do Seu reino e foram confirmadas por Jesus Cristo quando aqui esteve no mundo. Um caminho bastante inseguro por onde muitos estão trilhando e eu sinceramente não gostaria de seguir. A pesquisa apenas indica, cabe a cada um refletir se realmente quer desenvolver esse tipo de religiosidade.

 
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